sábado, 19 de abril de 2008

Parte 2

"Não importa quem eu sou." Ele disse levantando rápido do sofá. "Eu vou embora agora e você esquece que eu estive aqui." Ela se deitou na cama e ele foi vestir uma roupa. Na sala, percebeu que tinha alguém na janela. Lentamente, foi se aproximando, levantou um pouco a cortina e deu de cara com um homem armado. Um tiro foi disparado. Anita levantou, foi pra sala e viu ele caído no chão, próximo à janela. Pensou que ele estava morto, mas então, ele se virou e sussurou: "Sai daqui!" Ela saiu correndo pro quarto e ficou olhando da porta. Ele levantou rápido, o homem estava tentando pular a janela. Desferiu então, uma cotovelada na cabeça do homem, que ficou tonto e foi puxado pra dentro da casa pela janela, levou vários murros e chutes até não conseguir mais se mecher. "Pàra, pàra!! Pelo amor de Deus, véi, eu só estou trabalhando, peraí, peraí!!!" Pedro parou. Deu um passo pra trás. " Você está preso, seu desgraçado, tá ouvindo, você está preso!! Você vai comigo pra delegacia, vai depor contra o seu chefe filho da puta por que, se não for assim, eu te mato agora e alego legítima defesa. Quer morrer??", perguntou Pedro, ao que o homem respondeu, "Não, não, pelo amor de Deus, não me mata, não. Eu vou, eu vou pra delegacia." Pedro levantou o homem pela blusa e chamou Anita. " Tem arame, corda, alguma coisa de amarrar aí??" "Tem corda de varal. Serve?" "Vai logo pegar, anda, anda!!" Olhou pro homem, deu um soco na cara dele e falou: "você agora vai ligar pra aquele sacana do seu chefe e vai dizer a ele que me matou. E vai dizer que não precisa mandar ninguém pra cá, entendeu? Diga que vai cuidar de tudo. Olhe bem," ele disse, apertando o queixo do homem, "se algum colega seu aparecer, eu te mato e mato ele, você ouviu??" Bateu no rosto do homem novamente. "Ouvi, chefia, ouvi!" A essa altura, Anita voltava da cozinha com uma corda de varal. Deu a ele e perguntou " você vai fazer o que com ele??" "vou levar pra delegacia. Você fica aí e se esconde." "Não! Se eu ficar, Barriga me mata! Eu vou pra delegacia, eu vou pra onde você for." "Eu não vou ser responsável por você!" Ele disse quase gritando. "Vai, sim! Era pra você estar morto se não fosse eu que te socorresse. Você vai me proteger, eu nã vou morrer, não vou mesmo, ouviu??" "Tá! vai logo, se veste!! Pede um táxi, rápido!". Anita saiu correndo, ligou pra LIGUETÁXI, pediu um táxi na Avenida Beira Mar e foi se vestir. Assim que o táxi chegou, entraram os três e foram pra delegacia. No carro, ninguém falou nada. O taxista rompeu o silêncio ligando o som. Passou um anúncio e a voz do locutor entrou no ar. "Boa noite pra você, ouvinte, que está agora ligado em nossa programação. Ficaremos juntos até às três da noite ouvindo a Madrugada de Sons. Pra vocês, na nossa rádio, Vanessa da Mata e Ben Harper, Boa sorte. Essa é a rádio Soteropolitana, pra você. A música começou.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Ai...

Meu rapaz,
Não passe os braços ao meu redor
Não se encoste em meu corpo, não
Que é uma tortura ouvir sua voz
E o seu perfume me deixa sem chão...
Meu rapaz,
Não fale essas coisas tão boas de ouvir
Pare de me olhar como quem me quer
Se seguir assim, não vou mais fugir
Vou deixar que seja o que Deus quiser...

terça-feira, 15 de abril de 2008

e-mail

Eu recebo, às vezes, emails indesejados, como o do NENU, Encontro de estudantes negras e negros da Ufba. Isso é muito chato... Até por que é ser muito ignorante admitir que existam grupos de segregação racial dentro de um país tão misturado... Eis aí, a resposta que enviei para eles.

"Gostaria, por favor, de não receber mais emails deste remetente. Tenho
muitos motivos e, entre eles está o fato de não ser cega. Quando ando
pelas ruas, pela UFBa, ou mesmo quando olho no espelho, não vejo
negros, vejo brasileiros, que sofrem com o preconceito, que vocês, do
nenu, que a classe rica da sociedade e outras instituições, entidades
e tudo mais insistem em perpetuar. Quando vou à periferia, seja para
dar aulas ou visitar familiares e amigos, não vejo quilombolas, vejo
cidadãos, que são submetidos à uma segregação racial absurda e
ridícula, pois não deveríamos lutar pelos pretos, e sim pelos pobres,
pelas crianças de rua, PELAS PESSOAS QUE SOFREM, pois não é o negro
que sofre, somos nós, brasileiros, que pagamos pelo preconceito que
veio da Europa ignóbil e aqui recebeu um novo rosto. Acordem, meus
queridos colegas de faculdade. As cotas deveriam ser para pessoas de
baixa renda, pois ser negro não quer dizer ser burro, ser índio não
quer dizer ser incapaz. Não deveria existir NENU, assim como não
deveria existir Ku klus klan (ou seja lá qual for a forma de escrever
isto), nem skin heads, nem nenhum outro grupo que defende sua etnia em
detrimento da outra, ou isola sua etnia, olhando para ela como frágil,
desprotegida ou injustiçada. Somos brasileiros, somos cidadãos,
pagadores de caros impostos, somos pessoas. Eu tenho em minhas veias
sangue português, sangue espanhol e sangue negro. Não sei se posso
dizer que tenho hoje, em minha família, alguém com o sangue puramente
negro, ou branco, ou índio. Sei que existem, em algum lugar, pessoas
negras, brancas, indígenas, amarelas ou de qualquer cor que podem não
ter sofrido influência genética de outras etnias. E sei que a maioria
dos brasileiros é uma mistura e que muitos dos que levantam a bandeira
dos movimentos branco e negro são multiétnicos, assim como eu.
Reconheço que a maior parte dos pobres, dos marginalizados, dos
sofredores é negra por que o preconceito está enraizado em nós e nos
outros, desde que um tolo qualquer olhou pra um preto, pra um índio e
disse: ele é diferente, portanto, inferior a mim. Ele não percebeu que
as diferenças ensinam. E vocês também não perceberam isso. Eu sou uma
mulher. E vc, é somente negro?? E se existisse o Encontro de
Estudantes brancos e brancas da UFBa?? Abra seus olhos e enxergue além
da cor da sua pele, da pele dos seus amigos, colegas e vizinhos. Todos
somos alguém, não somos apenas uma cor. Não precisa responder este
email."

Para que serve uma janela.

_Você está aí nessa janela tem mais de meia hora. Eu queria saber o que é que você tanto olha.
_Humpf...
_Você me ouviu??
_O que é, hein??
_O que é que é que você tanto olha nessa janela??
_Sei lá!
_Como assim, "Sei lá?" Você não sabe o que está olhando na janela??
_Ô, menino, você não tem o que fazer não?? Fica enchendo meu saco!
_Que estupidez é essa? Eu só perguntei o que é que você está olhando na janela!!
_Nada!! Que droga! Estou pensando! Não estou fazendo nada, nem olhando nada!
_É impossível alguém pensar em nada. Você está olhando pra uma janela, lá fora tem um monte de coisas que podem te lembrar alguma coisa ou fazer você pensar e você não está pensando em nada??
_Ah... como você é burro...é pra isso que existem as janelas. Pra a gente sentar aqui, olhar através delas e poder não pensar em nada!

Parte 1

Então, ela chegou. Estava molhada de chuva, a pele mestiça aparecendo na transparência do vestido branco fino encharcado. O cabelo estava escorrendo, quase sem cachos. Não conseguira abrir a porta, a chave emperrou. A rua estava escura e agora ainda mais, pois um poste estourara e a luz se foi.
Ficou estressada e agoniada para entrar logo. Forçou a chave, que acabou quebrando. De repente, passos. Alguém se aproximava. Beirou a loucura do medo. A cada passo, o coração doía. Gritou com desespero, perguntando quem estava vindo. Sem respostas e os passos pararam. Começou a chorar, as lágrimas se misturando com a água da chuva, pensou em correr, mas sentiu a respiração forte de quem estava correndo. O homem segurou seu braço com delicadeza e disse: "Não corra, me ajude, me ajude..." O choque não lhe permitiu raciocínio. O homem foi caindo no chão devagar,dizendo: "Não me leva pro hospital, por favor, n...", se segurando no vestido dela. Ela deu um chute na porta, nada. Deu outro, mais forte. A porta abriu.
Ela estava atônita. Quem é esse cara? De que buraco ele saiu? Levantou ele devagar, arrastou até o quarto e tirou a roupa dele. Jogou a calça suja de sangue na lavanderia e a blusa na máquina, junto com os panos de prato. Levou o homem pra suíte, jogou no chão embaixo do chuveiro e abriu. A água, inicialmente fria, o despertou. Quando ouviu um gemido, foi para a cozinha pegar umas velas. Correu pro banheiro com as velas acesas e colocou uma na pia, outra na prateleira de shampoos e condicionadores. Viu o rosto dele.
Era bonito, mas estava pálido. Quando olhou para o chão, viu uma poça de sangue que crescia rápido. Desesperou-se mais uma vez. "E se esse homem morre no meu banheiro? Ai, Meu Deus do céu, o que é que eu faço??." Procurou aproximar a vela do corpo e examinou o desconhecido. Era a perna. Ele parecia ter sido esfaqueado na perna, o que poderia ter atingido a femural. Se tivesse atingido a femural, ele morreria logo. Não era musculoso, magro ou gordo. Era normal. terminado o banho, tirou ele do banheiro e levou pra sala. Pegou um cobertor grosso, um fino, um colchonete grande e uma esteira, e armou uma cama para ele no chão da sala.
Foi pegar linha e agulha no quarto, esterelizou a agulha e foi costurar a ferida do homem. Ele nem se manifestou. Devia ter desmaiado.
Voltou ao quarto, consegui no guarda-roupas uma cueca samba canção e uma blusa do irmão e foi pra sala, vestir o homem. Depois, cobriu ele e ligou o ventilador de teto.
Quando acabou de ajudá-lo, foi tomar banho. No chuveiro, ficou pensando que aquele cara podia ser qualquer coisa, ladrão, médico, feirante, empresário... Respirou fundo, desligou o chuveiro e foi se deitar. No outro dia, pela manhã, o homem estava sentado no sofá, já com uma aparência mais corada. Ficou aliviada e perguntou logo "Quem é você?", ao que ele respondeu "Bom dia, moça."
Enquanto ele se dirigia para a mesa, ela examinou os lençóis e não viu sinal de sangramento, exceto por uns pontinhos. "Quem é você?", insistiu ela. "Pedro. Meu nome é Pedro." Ficaram se entreolhando na mesa do café. Ela foi a primeira a se manifestar. "O que você fez pra vir parar na minha porta quase morto ?" " Quase nada.", ele respondeu. "Você cresceu aqui? Mora sozinha?" "Cresci. Minha mãe morreu tem três anos e eu não conheço meu pai. Sei que ele era policial e não me quis" Parou. "Eu quero saber como você veio parar aqui." "Eu tenho uma padaria. Um dia desses, um cara foi lá, assaltou a padaria, levou o dinheiro, as mercadorias e assaltou mais três comércios próximos. Eu descobri quem é o cara, pra quem ele trabalha e vim cobrar meu dinheiro. Ele me bateu e, quando ia me matar, chegou alguém e ele se mandou correndo. Vi você descer do ônibus, me escondi e esperei você chegar na sua porta. Foi isso. O que você faz?" "Por que você quer saber?" "Sei lá, estou na sua casa, tenho que pelo menos parecer legal."
"Você acha legal aparecer na porta de alguém às 4 da manhã ensanguentado e não querer ir pro hospital? Você acha gentil assustar as pessoas? Eu quero que você vá embora. Quem me garante que você é padeiro?" "Eu não disse que era padeiro, eu sou dono de uma padaria. Tudo bem, você pode não acreditar em mim, mas não precisa fazer escândalo". Levantou, como quem vai embora, mas se desequilibrou e caiu. Ela levantou, colocou ele deitado no sofá e disse: "Assim que você ficar melhor, volte pra sua padaria. Por enquanto, pode ficar aqui." "Você não me disse o que faz." Disse ele. " Meu nome é Anita. Eu faço medicina na Baiana e sou supervisora na Vivo. Vou dormir, se precisar de alguma coisa, pode se servir." "Peraí", ele novamente, "Você conhece um tal de Barriga??" "Não, mas já ouvi falar. Ele é traficante, né?" "Se ele é traficante eu não sei, eu sei que um vagabundo que trabalha pra ele assaltou minha padaria." "Você devia ter chamado a polícia e não ficar correndo atrás de marginal sozinho. Eu tenho que dormir. Tchau" "Tá." Deitou no sofá e dormiu. Perdeu muito sangue e estava fraco.Quando acordou, eram 5 da tarde ela se arrumava para ir trabalhar. "Eu volto logo. Tchau." "Tchau. Ééé... Bom trabalho." Ela não respondeu. Saiu e trancou a porta por fora. Ele manteve as luzes da casa desligadas e permaneceu deitado. Bem mais tarde levantou-se, foi até a cozinha, acendeu a luz e viu um prato de comida embalado no papel alumínio. Tinha um papel colado escrito: "Seu almoço". Comeu, estava com muita fome. Eram 2 da manhã, logo ela voltaria. Uma mulher bonita, com o corpo tão bem feito por debaixo daquele pijama de manhã cedo...sozinha. Podia ser até coligada de Barriga. Quanto será que ela ganhava na Vivo pra ter uma casa bonita como aquela?? Tinha alguma coisa errada nessa história? Ficou pensando essas coisas.
Sentou no sofá. Ligou a televisão. Um filme velho qualquer falando sobre monstros e fantasmas. Que tédio. Daí a quinze minutos,ela chegou. Voltou toda suja, com um vestido curto, rasgado e parecia ter sido espancada ou atropelada por um caminhão. Ele ficou olhando e depois foi correndo socorrê-la. Ela falou primeiro: "Quem é você?? POr que Barriga quer te matar?? Sai da minha casa, eu não quero você aqui!" Ela desmaiou. Ele carregou ela pro quarto, encheu a banheira, colocou ela lá dentro e ficou olhando aquele corpo: parecia uma escultura. Seios médios, firmes, um quadril farto sustentando uma cintura perfeita. Nem chegou a passar sabonete na mulher, nem conhecia ela. Tirou ela da banheira, enrolou e colocou na cama. Ela acordou. Ele estava sentado diante dela. " Quem é você?" Ele perguntou. "Você por acaso é idiota?? O estranho aqui é você, você está na minha casa!" Ele sacou uma arma e perguntou novamente: "Quem é você?" Ela estremeceu. "Eu já disse quem sou eu." " Não. Você não trabalha na Vivo. Ou você diz ou eu vou atirar em você." Ele destravou a arma e continuou apontando pra ela. Ela disse baixo: " Eu faço programa. Eu não trabalho pra Barriga, mas ele sabe... o que eu faço. Ele foi pro flat onde eu estava com um cliente, me esperou descer, me pegou e me ameaçou. Perguntou se eu sabia onde você estava, eu disse que você já tinha ido embora e ele me bateu. Agora fale quem é você e abaixe essa porcaria!"

....

Seus passos ficaram pelo chão

Na sala, no quarto, no quintal

Sua vida ficou metade aqui

No seu mundo passou meu vendaval

Já não estou aí

O meu olhar já não te faz mal

Na janela eu já não vejo o céu

Não compro mais flores de manhã

Na sua casa não tem mais pão de mel

Nem alfazema, nem maçã

Nossas vidas já não têm lápis de cor

Já não se cruzam pelo ar

Já não têm amor

Nem tem brilho no olhar

Vou esperar na porta sentada

Pra ver se você esquece o orgulho

E sobe a escada...

Caminhada.

Nada dura para sempre e tudo vai mudar...Então, mude também. A tinta não acaba, ela muda de tonalidade. A tela não envelhece, ela só muda o jeito de ser bonita. O tempo não destrói a magia...ele esconde ela pra você ter novamente o trabalho interessante de achar. Os filhos não ocupam a primeira posição, eles dividem com você. As rugas não deixam tudo feio, elas são a sua história escrita no lugar mais interessante para ser lida: seu corpo. Os amigos não ficam submissos aos conjuges, eles só se dividiram com alguém além de você. As crianças não estão te desrespeitando, elas só estão te mostrando o jeito certo de não criar os seus filhos. O mundo não está tão mal assim, ele só está pedindo que você ensine a quem vem o que fazer pra mudar as coisas. Os mais jovens não são irresponsáveis, eles são apenas mais jovens.

Relationship.

"O amor não consiste em olhar um para o outro, mas sim em olhar juntos para a mesma direção". (Antoine de Saint-Exupéry)

Ficar apaixonado por alguém todos os dias não dá a segurança de que isso não vai acabar. Mas dá a segurança de que é uma sensação maravilhosa de insegurança. Não precisa medir o tempo pra saber a quantidade de amor... Às vezes o tempo não fala. Aliás, é raro ele dizer alguma coisa.
O amor se mede pelo brilho nos olhos, pela maciez da pele, pelo disparar do coração... Ninguém pode saber qual é a fórmula do amor perfeito e eterno. Ninguém foi feito com fórmulas. O mistério é que quando você tem muitas certezas de tudo, a vida trata de mudar todas elas em incertezas.
Não se começa sendo Dom Juan ou alguma Princesa Encantada se a intenção de melhorar não está incluída no pacote. É contra as regras do amor que o príncipe vire sapo e que a princesa vire bruxa, pois, se isso acontece, é por que eles tinham nas mãos um feitiço forte pra conquistar, mas o feitiço pra manter uma conquista ninguém é capaz de fazer.
Ah, sim, as pessoas mudam. Todos os dias. Elas conhecem novos sóis e luas, novas nuvens, ruas, colegas, opiniões.... E vão mudando. Mas as mudanças têm que acrescentar e não tirar. não se muda uma coisa boa pra uma pior. É de bom pra melhor.
É assustador se lançar de cabeça nesse doce abismo que é o amor, mas o que é a vida senão se lançar todos os dias em novos abismos?
Se sentir protegido dentro dos braços de alguém, ter alguém do lado que caminhe junto, estar dentro de um coração que ama é o que dá sentido à vida, é o que se chama plenitude.

Alguém

Estava assim tão só
E fiquei cego...
De repente, assim,
Simplesmente a luz chegou...
Deixou a roupa lá fora
E entrou
Deitou em mim sem demora
E ficou até o sol...
Levantar? Não sei se quero agora.
Só sei que perdi a hora
Quando a janela se fechou
E tudo é um só agora
E a luz em mim se derramou...
E entre todos os sons das cordas
O silêncio vem e traz
Um gosto bom de paz...
E a luz adormece
E me dá um alento.
Já não sou mais só.

Minha filha,

As Igrejas estão cheias de velhos, sim, mas não é por que eles não têm o que fazer. Você é que não está lá por que não entendeu que isso é o que você também deveria estar fazendo.
Doces, gorduras, comidas enlatadas e congeladas são gostosos. Mas, depois de algum tempo, o estômago, o rim e o intestino cobram as visitas das frutas e verduras e o tempo que levaram pra expulsar a "junk-food" de dentro de você.
Você é alguém. E é importante. Ninguém faz faculdade pra ser alguém, fazemos faculdade pra alcançar alguma coisa, pra conhecer alguma coisa.
As revistas não vão te dizer sobre moda. A moda é você quem faz. Não adianta vestir uma calça de cintura baixa, um top bem apertado e não poder respirar ou então vestir aqueeele vestido e, quando tirar a roupa diante do espelho, ver as marcas que a roupa deixou e se desesperar por que pode virar uma estria. Vista a roupa que te faz sentir você.
Você não precisa casar virgem. Só saiba que o corpo é seu e que é importante não guardar arrependimentos atrás das rugas. Guarde somente os sorrisos e lágrimas de uma boa vida.
Casamentos não duram para sempre. Eles duram o mesmo tempo que dura um beijo doce, um abraço, uma paixão, um olhar sincero ou mesmo uma amizade.
Os homens prestam, sim. São crianças presas ali dentro, que choram por que a bolinha caiu no bueiro. Então, quando eles jogarem a bolinha pra você, não deixe que ela caia.
O ruim de envelhecer não são as rugas ou os cabelos brancos ou mesmo a visão que piora... É não ter com quem compartilhar o restante dos nossos dias.

Viva.



Dona Creuza.

Seu Teotônio chega em casa, morrendo de vontade de ir ao banheiro. Comera uma maniçoba que não lhe fizera bem. Dona Creuza, de camisão de dormir, aguardava no sofá de luz acesa. Quando ele abriu a porta, foi bombardeado por uma mulher, do alto de seus quarenta e sete anos, brevelínea e bem feita, com uma cara bem enfezada.
_Seu filho de uma égua. De quem é essa calcinha, Teotônio?
_Oi, meu bem! Disse ele, confuso por causa da calcinha e da dor de barriga. _Olha, eu vou rápido no banheiro e a gente conversa, estou com dor de barriga, viu?
_Você não vai pra lugar nenhum dentro de minha casa se não me disser de quem é esse diabo dessa calcinha. Diga logo aí!
_Ô, Mulher, pelo amo de Deus, eu estou me borrando todo aqui!! Deixa eu ir no banheiro!!
_Vai! Vai logo que eu não estou com a menor vontade de limpar cocô de ninguém!! E pense numa resposta bem convincente pra me dar!
Lá vai ele, todo apertado dentro da calça social, cheio de gravata e paletó, correndo pro banheiro. Mal sentou no sanitário, foi um imenso alívio. Quando terminou, se lembrou da calcinha: De quem seria aquela minúscula calcinha?? Tomou banho, se trocou e foi pra sala. Dona Creuza continuava enfezada.
_A resposta Teotônio. Estou esperando.
_Meu amor, meu amor... Você sabe que eu não te traio. Eu nunca te traí, você sabe disso. Eu não sei de quem é essa calcinha.
_Como assim você não sabe?!?!? A calcinha agora voa, é, meu filho?
_Pense aí, Creuzinha, pense aí. Você acha que eu seria tão ignóbil de te trair, sabendo que você conhece essa cidade toda, ainda por cima na sua cama, minha deusa?
_Olhe só, eu não sou lesada, não, meu filho... Eu uso 40, essa calcinha é trinta e seis no máximo. Se não é minha é de quem?
_Eu não sei, merda!!!! Disse seu Teotônio, começando a ficar irritado._ Sua irmã não passou esse final de semana aqui?? Deve ser dela!
_Eu já perguntei a ela e ela disse que não é dela! Me diga logo Teotônio, de quem é??
Nisso, levanta Clara, a filha do casal. Uma menina bonita, com seus dezesseis anos, toda descabelada e com o rosto marcado de lençol.
_QUe é isso aí, Deus é mais! A pessoa nem pode dormir!
Dona Creuza começa a chorar.
_Minha filha, não se case. Homem é uma desgraça...
_Pàra, Creuza, de falar maluquice pra menina!
_O que foi agora, gente... Disse Clara, já acostumada com as loucuras dos pais.
_Isso, ó. Foi isso. Seu pai trouxe uma vadia pra dentro de casa, a ordinária deixou a calcinha no meu quarto, embaixo da cama!
Clara olhou para a calcinha como quem conhecia.
_O que foi Clarinha?? Perguntou Dona Creuza. _É sua essa coisinha pequenininha?
_Minha filha!!! Agora Seu Teotônio. _ Você é muito pequena pra usar essas coisas!!
_Ai, ai, ai...Disse Clara, passando as mãos na cabeça. _A gente tem que conversar.
_Seu Teotônio emudeceu. Dona Creuza, nem se fala. Pensaram a mesma coisa. Essa menina anda dando pra alguém dentro de casa.
_Eu não quero que vocês falem nada antes de eu terminar de falar. Bom, eu pedi a vocês ano passado um notebook, não foi??
_U-hum! Fizeram os dois sacudindo a cabeça, com os olhos bem abertos e pensamento modificado: "Minha filha é prostituta. Minha Nossa Senhora da Cabeça!"
_Então, eu não ganhei por que perdi em física na escola, né?
_Ééé... Disseram em coro uníssono.
_POis é. Tentei várias coisas pra ganhar dinheiro; Essa calcinha, por exemplo, estava num conjunto de lingeries que eu vendi por umas semanas. Tentei vender trabalhos e provas na escola...Nada dava certo. Aí, pensei: Poxa, o quarto de minha mãe é lindo, todo decorado, cheio de espelhos...eu podia alugar ele de vez em quando. Aluguei uma vez pra uma colega, já que menor não entra em motel. Ela adorou, me pagou 30 reais e ainda trouxe três casais amigos dela. A partir daí, foi só propaganda boca a boca.
Enqanto a menina falava do seu novo negócio com empolgação e muita noção de custo benefício, Seu Teotônio e Dona Creuza estavam se sentindo num pesadelo psicodélico ou alguma coisa parecida. Essa menina estava com problema na cabeça, só podia. Usando o quarto dos pais como motel para menores?? Foram, aos poucos, voltando a si. Dona Creuza desatou a chorar e seu Teotônio estava zonzo, não sabia se era a maniçoba ou a maluquice da filha. Esta, continuava sua descrição do negócio, que havia se estendido ao quarto do irmão que casara e se mudou. Ela dobrara o lucro e equipara os dois quartos com iluminação especial e caixas de som que tocavam de música francesa, para os mais ousados até Evanescence ou Bon Jovi, para os mais descolados.
_Enfim, _continuou a menina com distinção na pronúncia_ já lucrei quatro vezes o que preciso pra comprar meu notebook. Agora, com calma, vocês vão reclamar comigo civilizadamente, pensando no barraco que vai ser se o prédio todo ouvir que eu alugo nossa casa pra a galera "de menor"...vocês sabem.
_Menina, pelo amor de Nossa Senhora Aparecida... Seu Teotônio, ainda zonzo. _Não era mais fácil tirar nota boa na escola e pedir novamente??
_Ah, pai, fala sério! Eu sei que é ilegal, mas pelo menos eu não tô me prostituindo nem traficando, essas coisas brabas. E ainda por cima, aprendi a fazer negócio!
_Ai, Meu Pai!! Choramingou Dona Creuza. _Minha filha, que loucura! Você tá com algum problema na sua cabeça, menina?Isso é ilegal e é falta de respeito!! Acorda menina, olha a maluquice que você está fazendo!!
_Mãe, seja racional. Tem um tempão que eu não peço dinheiro pra nada a vocês. Consegui dinheiro pro notebook, melhorei o quarto de vocês, comprei um ventilador novinho pra mim, até o módulo desse semestre na escola eu que paguei, estão lembrados?? Se continuar no ritmo que anda, daqui um tempo eu troco seu colchão, troco o colchão do antigo quarto de Cássio e compro uma cama de casal pra mim pra poder alugar meu quarto também!! Imagina só, eu pagando minha escola, me custeando...Isso é o que importa, mãe! Dinheiro!
_Fez-se o silêncio. De repente, Seu Teotônio explodiu. Disse que ia internar a menina, que ela estava zoró,que nunca viu isso, que não sei o que, não sei o que lá e caixinha de fósforo. Clara foi ficando estressada com a falta de visão de negócio do pai e foi assertiva:
_Chega, Meu Pai, chega! Que agonia, oxe!!! Olhe, se o senhor me mandar pra uma clínica eu fujo. O senhor sabe que eu fujo. Além do mais, vocês são mão de vaca, não gostam de dar nada pra mim. Vai ver que foi até por isso que Cássio se casou e foi embora. Tá bem, eu não alugo mais seu quarto, já que te incomoda...Mas o meu e o de Cássio eu vou alugar. E tem mais, hein!! Eu tenho um sócio. Ele agora vai se encarregar de fazer a propaganda pra a galera dos outros colégios, mais caros, o povo que tem grana. Como Minha Mãe disse que vocês sairiam hoje, eu achei que o quarto estaria desocupado e acertei com ele que seria o quarto de casal. Então, sejam legais e deixem eu usar esse quarto pela última vez, certo? Muito bem, vão logo se arrumar pra sair que eu não quero pagar esse mico de eles encontrarem vocês aqui...Vai logo, gente!
Lá foram eles, sem conseguir raciocinar. Parecia que tinham bebido cachaça e fumado maconha. Zonzos, tomaram banho, se arrumaram e saíram. No térreo, encontraram os adolescentes; tão jovens, tão jovens. Meu Deus. Onde é que esse mundo vai parar! Um deles, parecia ser o sócio, falou com o porteiro:
_Boa noite, moço. A gente tá procurando a Clara do 802, ela tá aí?
_Tá sim, ó os pais dela saindo ali!
Se olharam os cinco. Os meninos sem graça, mas sem entender, os adultos sem graça e entendendo tudo.
_Você interfona pra ela aí?
_Tá bom.
Eles pegam o elevador. Os pais de Clara dão uma última olhada e seguem porta afora. Fazer o que. Esses meninos estão cada dia mais precoces.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Não volto.

Minha mãe me disse pra eu tomar cuidado, o mundo é perigoso lá fora...

E meu pai me deu um escudo grande antes de eu ir embora.

Mas, sabe, o mundo me sorriu quando eu abri a porta,

E eu posso ver todas as cores do céu agora...

E vendo abertas as minhas antigas janelas,

Não sinto falta de olhar o mundo através delas...

O mundo agora é todo meu e é indominável

E eu sei que o horizonte é infindável

E cada passo que dou, irrevogável...

Não sei...

Você,
Ultimamente as coisas não estavam muito bem. Acho que quase fiquei louco. Não sei, não me pergunte por que é que estou escrevendo sobre isto, mas tenho que contar minha história.
Foi assim que aconteceu: De repente, não mais que de repente, surgi bem aqui onde estou agora e já surgi com problemas. Primeiro, eram pancadas, pancadas e mais pancadas. Acho que doíam tanto que eu não sentia dor, muito mais me incomodava o barulho. Eu nasci muito estressado, não conseguia me mover e o barulho me incomodava muito. Parecia até que existiam pessoas gritando dentro de mim, me arranhando, me furando, me batendo. Mas aí, sem mais nem menos, as pancadas cessaram.
Então, colocaram dentro de mim_ pelo menos eu acho que colocaram_ uma coisa que subia e descia o tempo inteiro e muitas vezes me dava vontade de vomitar. Acho que era um tipo de aparelho para que eu pudesse me movimentar um pouco, mas isso me deixava desesperado, pois aquela coisa não me fez sentir útil, somente enjoado. Logo quando colocaram, eu engulhava, fazia uns sons estranhos e, às vezes, era como se eu parasse completamente. Quando isto acontecia, as pessoas que gostavam de mim ou precisavam de mim por algum motivo ficavam chateadas, reclamavam com quem cuidava do bom funcionamento do meu organismo e eu sempre voltava, cheio de esperanças de conseguir viver.
Ainda por causa desse aparelho, quase fiquei esquizofrênico. Eu ouvia vozes dentro de mim o tempo todo e não conseguia entender o que elas diziam e comecei a achar que eram fantasmas ou demônios. Entrei em crise de pânico, tentava gritar, mas não conseguia, já que nasci sem voz. Quando percebi que não conseguiria fazer com que as pessoas me entendessem, parei de tentar gritar. Comecei a fazer uma coisa que ouvi uma voz dizendo várias vezes dentro de mim: "Tente ouvir seus gritos internos". Pois bem, tentei. Comecei a ouvir pessoas que falavam sobre mim, dentro de mim, era como se eu tivesse múltiplas personalidades, todas presas, diferentes e curiosas. Comecei a ouvir muito frequentemente as palavras "andar", "desce" e "sobe". Era uma doce voz de mulher que dizia isto.
Comecei a pensar que eu devia ter algum problema no sistema nervoso e motor, por isso não conseguia ouvir direito, me mecher muito e falar. Fui, a cada dia, prestando mais atenção nas vozes. Algumas diziam: " anda, fecha, fecha!", outras falavam " maravilhoso, né? Já estava na hora de nos darem um...". Comecei a pensar se essas vozes falavam comigo ou entre elas.
Foi tentando ouvir meus gritos internos que, um dia, consegui ouvir as vozes que me disseram quem eu era: " Gente, esse elevador é muito bom!! Nunca tinha visto um desses! Ó, tem até perfuminho!". Aí sim, comecei a entender. Eu não precisava me desesperar, não precisava tentar gritar e aquele aparelho dentro de mim era somente a caixa do aparelho principal. Eu sou útil, sou necessário, sou até querido. Eu sou um elevador.
Eu quero agradecer muito ao yogi e psicólogo que mora no décimo nono andar deste edifício onde fui construído, pois, dando conselhos aos pacientes dele, acabou me ajudando a me encontrar e me entender. Foi por causa dele que ouvi quem eu era.